Amor e auto-estima

O conceito de "eu" é a capacidade de a criança se reconhecer individualmente em relação aos outros. A criança começa por compreender "eu e os outros" e, posteriormente, "eu faço parte deste mundo e tenho características". À medida que este conceito amadurece, a criança começa a construção de um ser competente, confiante, seguro, bem aceito por si próprio e pelos outros, independente e amado. Um conceito de "eu" positivo contribui  para o surgir do sentido de responsabilidade, para o sucesso pessoal, familiar, social e escolar (Antunes, 2024).

Neste processo é crucial a forma como a criança é vista e tratada pelas suas figuras significativas (cuidadores e amigos), neste sentido as perspetivas criadas acerca de si próprias assentam nas perspetivas transmitidas pelos outros através das interações sociais.

Curiosidade: "as crianças que desenvolvem uma auto-imagem positiva e sentido de competência e valor próprio são aquelas que experienciaram ao longo da infância relações calorosas e amor incondicional (Portugal, 2008).

Imaginemos a seguinte situação:

"Artur e Joana disputam por uma boneca. A educadora movimenta-se na sua direcção. Antes que esta os alcance, Artur dá uma palmada forte no braço de Joana. Esta grita e começa a chorar. A educadora ajoelha-se no chão diante das duas crianças. O seu rosto está calmo, os seus movimentos são lentos e cuidadosos. Agarra o braço de Artur e diz-lhe: "Calma, Artur, calma". Ao mesmo tempo afaga Joana. Artur está em silêncio. Joana continua a chorar. A educadora volta a tocar-the com gentileza. "Bateram-te, não foi? Isso dói!" Joana pára de chorar e olha para a educadora. Os três ficam em silencio por momentos, A educadora espera. Artur agarra no brinquedo e prepara-se para o levar. Joana agara-o. A educadora permanece em silencio até que Artur volta a levantar novamente a mão para bater. "Eu não posso deixar te magoar a Joana" diz a educadora agarrando-o com o braço ainda levantado. "Tem calma, calma". Joana com um puxão apropria-se da boneca e Artur inexplicavelmente deixa-a ir. Triunfante, Joana atravessa a sala. Artur triste permanece no mesmo canto. A educadora está com ele. Joana vê uma bola, deixa cair a boneca, e vai atrás da bola. Artur cone para a boneca, pega-lhe ao colo com ternura e embala-a. A cena termina com as duas crianças brincando contentes e a presença do educador deixa de ser necessária" (Portugal, 2000).

A situação anteriormente descrita encontra-se inserida no princípio 7, este denomina-se de Modelar os comportamentos que se pretende ensinar. Este princípio está relacionado com o príncipio 8, este denomina-se de Reconhecer os problemas como oportunidades de aprendizagem e deixar as crianças tentarem resolver as suas próprias dificuldades. Através desta relação, constatamos que é fundamental que as crianças sejam capazes de resolver os problemas que estão ao seu alcance. Nesta situação, o educador poderia ter intervido. Contudo, não o fez, deixando que as crianças tomassem as suas próprias decisões, embora tenha impedido que se magoassem um ao outro. 

A educadora optou por modelar, com gentileza, o comportamento que pretendia ensinar. Esta abordagem não é a mais comum, visto que a educadora teve em conta os sentimentos do Artur (agressor), não efetuando qualquer tipo de julgamentos. Já a Joana (vítima) necessita de ser tratada com empatia mas não com excessiva "simpatia", pois mais tarde pode confundir o papel de vítima com a recompensa de amor e atenção que lhe é dada. 

Ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, as crianças são capazes de resolver os seus problemas. O papel do educador consiste em dar tempo e espaço às crianças, não devendo intervir imediatamente perante uma frustração, promovendo o desenvolvimento da sua auto-estima e confiança, ou seja, a autonomia (Portugal, 2000).

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