Vínculo
A qualidade das práticas parentais na infância constitui um ponto fulcral no desenvolvimento equilibrado e ajustado da criança. Os pais serão os primeiros educadores e agentes socializadores da criança, motivo pelo qual as suas práticas irão, inevitavelmente, influenciar as aprendizagens e o comportamento dos seus filhos no futuro (Antunes, 2024).
De acordo com o texto de Portugal (2000), mais concretamente com o princípio 1, este denomina-se de Envolver as crianças nas coisas que lhes dizem respeito.
"objectivo da educadora é o de manter Carolina envolvida na interacção, no seu próprio corpo e no que se estava a passar. A muda de fraldas foi uma experiência altamente educativa onde Carolina trabalhou a focalização da atenção, o conhecimento do corpo, a cooperação. (…) O valor que a criança se atribui a si própria é validado na interacção com a figura adulta através de muitos gestos, tons de voz, contactos visuais, etc. A criança constrói modelos do mundo e dela própria a partir dos quais interpreta os acontecimentos. constrói previsões e projectos. (…) A criança que experiencia as principais figuras adultas como emocionalmente acessíveis e como fontes de segurança provavelmente construirá uma representação de si positiva."
A situação anteriormente descrita está relacionado com o princípio 2, este denomina-se de Investir em tempos de qualidade procurando-se estar completamente disponível para as crianças.
O princípio 2 descreve a forma como a educadora optou por valorizar o "tempo de qualidade" com a Carolina e como esta optou por responder ao Pedro face à sua interrupção. Pedro necessitava da atenção da educadora, a mesma referiu que estava ocupada a mudar a fralda à Carolina e que assim que terminasse ia ter com ele. Pedro foi capaz de esperar pela sua vez, tudo indica que este também já experienciou "tempo de qualidade".
O vínculo afetivo caracteriza-se por ser uma ligação entre um indivíduo e uma figura de apego (cuidador). Estes laços podem ser recíprocos entre dois adultos, mas quando se trata de uma criança e o seu cuidador são baseados nas necessidades de segurança e proteção, fundamentais na infância. A teoria pressupõe que criança se apega instintivamente, com a finalidade de sobreviver, incluindo o desenvolvimento físico, social e emocional.
Existem padrões de vínculo que os indivíduos criam entre si. Esses padrões costumam ser categorizados em quatro principais tipos de vínculo: (i) Vínculo Seguro; (ii) Vínculo Inseguro; (iii) Vínculo Inseguro Evitante; (iv) Vínculo Evitante (ACT Institute, 2019).
Diversos psicólogos explicam que o vínculo adquirido com os nossos pais, no início das nossas vidas, cria um modelo com base no qual construímos e interpretamos os nossos relacionamentos para o resto das nossas vidas.
Se uma criança se sente amada e segura no seu relacionamento com o seu cuidador, é mais provável que ela explore o mundo ao seu redor, seja sociável e brinque com outras crianças (Vanegas, 2024).
Caso contrário, é provável que sinta ansiedade, desconforto e desenvolva comportamentos como procurar constantemente os pais ou mesmo chorar até atingirem um nível desejável de proximidade física e psicológica com o cuidador (Vanegas, 2024).
A vinculação é uma relação emocional profunda e duradoura que liga uma pessoa a outra no tempo e no espaço e consta de uma necessidade primária básica, inata do ser humano, sendo tão forte como qualquer outra necessidade tal como a alimentação e o sono.
As crianças são biologicamente predispostas a utilizarem seus pais como um porto seguro que lhes forneça conforto, cuidados e proteção quando sentirem algum desconforto ou medo, assim como enquanto uma base segura a partir da qual podem explorar o meio, tendo sempre para onde retornar. A curto prazo, a vinculação protege a criança de potenciais perigos e a mantém próxima dos pais, enquanto a longo prazo, acaba por fornecer o modelo no qual as outras relações se vão basear. Este sistema de vinculação organiza-se e consolida-se ao longo dos primeiros anos de vida.
Vinculação segura- As crianças que apresentam este tipo de vinculação tiveram as suas necessidades respondidas, podendo sentir a liberdade de explorar, brincar e expressar os seus sentimentos. Estas crianças também, com o apoio e a orientação dos cuidadores, aprendem estratégias de como regular as suas emoções, isto é, de as conhecer, compreender e expressar. No entanto, quando a sensibilidade dos pais às necessidades da criança é insuficiente ou ainda, precária, o modelo de vinculação da criança poderá ser disfuncional e vir a trazer problemas futuros nas suas relações com os outros, consigo mesma e na regulação das suas emoções (Senise, s.d.).
Vinculação insegura- As crianças que apresentam este tipo de vinculação tiveram as suas necessidades respondidas de modo irregular e inconsistente. Estas crescem com a perceção de que o mundo que os rodeia e os outros são imprivisiveis e que o carinho e o conforto não são garantidos. Mediante frustrações e dificuldades, são dificilmente confortadas. Na ausência de outras relações significativas que sejam estáveis, constantes e acolhedoras, estas crianças podem vir a ser people pleasers, ou seja, quem está sempre a tentar agradar os outros, de forma a garantirem que sejam aceites e amados, particularmente pelos seus pais (Senise, s.d.).
Vinculação insegura evitante- As crianças que apresentam este tipo de vinculação tiveram as suas necessidades ignoradas. Estas crianças podem crescer com uma perceção de que o mundo é inóspito* não podendo confiar nas pessoas ao seu redor. Estes indivíduos podem vir a ser solitários, hostis e agressivos (Senise, s.d.).
Vinculação evitante- As crianças que apresentam este tipo de vinculação, na maior parte do tempo foram negligenciadas. No entanto, quando as suas necessidades eram respondidas, estas eram feitas de forma violenta. Estas crianças crescem com elevado medo dos seus cuidadores, vendo o mundo e os que o rodeiam como uma fonte de perigo. Podem autoavaliar-se enquanto não merecedores de amor, assim como terem dificuldades em desenvolver empatia (Senise, s.d.).
Em suma, quando um vínculo afetivo se caractacteriza de forma positiva proporciona conforto, segurança, confiança e empatia. É o alicerce para o futuro desenvolvimento de relações fortes de amizade e confiança (Antunes, 2024).
