Segurança emocional e sentimento de controlo
Responsividade* por parte do adulto, regras claras e justas fazendo parte do mundo social da criança, são elementos importantes não só para a compreensão social do mundo, mas também para o sentido de controlo, de se sentir capaz de agir sobre o mundo, de o alterar e de fazer acontecer coisas (Antunes, 2024).
De acordo, com o texto de Portugal (2000), mais concretamente com o princípio 9, este denomina-se de Construir segurança ensinando a confiança. Através deste princípio conseguimos constatar que é fundamental transmitir confiança e segurança às crianças.
"Para que a criança aprenda a confiar, necessita de poder contar com adultos confiáveis. Necessita de saber que as suas necessidades serão satisfeitas dentro de um período de tempo razoável. Necessita de contar com adultos que respondam às necessidades e que simultaneamente ofereçam força e apoio, que não a enganem."
No ponto de vista da criança, as relações adquiridas com as figuras adultas significativas (cuidadores) representa um mundo social primário, ou seja, é com estas figuras que as crianças têm o primeiro contacto de socialização.
De acordo com Erickson (1971), citado por Portugal (2000) é expectável que a criança tenha a necessidade de ter sempre alguém por perto para auxiliá-la e direcioná-la caso esta precise. Este comportamento fortalece os laços de segurança entre criança-cuidador. Pelo contrário, se o sentimento de desconfiança desenvolver-se, a criança passa a ver o mundo como um lugar hostil*, pois se as figuras significativas falharem na satisfação das necessidades da criança, estas sentem o mundo como sendo inconsistente, doloroso, ameaçador ou angustiante.
Imaginemos a seguinte situação:
A Lili é uma criança de 3 anos e a mãe antes de ir trabalhar deixa-a no jardim de infância. No momento de despedida, a pequena Lili apercebe-se que a mãe está prestes a ausentar-se e por isso começa a chorar. Ao tentar apaziguar a situação, a mãe distrai a filha com um brinquedo de forma a conseguir sair sem que esta se aperceba. Este tipo de comportamentos por parte dos cuidadores, não fortalece os laços de confiança entre estes e as crianças, pelo contrário, pois irá criar um sentimento de descofiança.
De forma a fortalecer a segurança emocional e o sentimento de controlo, a mãe da Lili deveria optar por outro tipo de comportamento. Ao invés de distrair a Lili com um brinquedo, a mesma deveria agachar-se ao nível da filha, olhá-la nos olhos e dizer: "Eu vou sair agora para ir trabalhar, mas volto à tarde para vir buscar-te.". Desta forma, a mãe da Lili assegura à mesma que irá voltar, com isto a criança aprende a prever quando é que a sua mãe irá ausentar-se. Neste sentido, é transmitida a segurança e a confiança necessária, satisfazendo assim as necessidades da criança.
O papel do educador é fundamental neste contexto, visto que providencia segurança, apoio e empatia, aceitando o facto de a Lili estar triste, havendo assim uma validação dos seus sentimentos.
Desenvolver atitudes positivas para consigo próprias é importante, mas as crianças necessitam de desenvolver também sentimentos de confiança com os outros e com o mundo, num processo de desenvolvimento de atitudes, valores e disposições, que constituem as bases de uma aprendizagem bem-sucedida ao longo da vida e de uma cidadania autónoma, consciente e solidária (Silva et al., 2016).
Através da teoria da atribuição é possível constatar que as crianças, perante uma situação de insucesso, responderão de forma positiva e esforçar-se-ão nas futuras tarefas, assumindo que o sucesso depende essencialmente de si. Se considerarem que o seu desempenho é determinado por fatores que estão fora do seu controlo, responderão de forma negativa o que faz com que estes desistam mais facilmente. É evidente que o facto de a criança não acreditar que o sucesso depende dela tornar-se prejudicial para o seu desenvolvimento. Este modelo de atribuição explica a correlação entre a baixa auto-estima e a motivação, que consequentemente conduzirá a um baixo esforço por parte da criança, confirmando a fraca perspetiva acerca de si própria.
Assim sendo, quando a criança é precocemente, emocionalmente e cognitivamente negligenciada, as funções mediadas pelo cérebro são de certa forma afetadas, resultando em ansiedade, depressão ou incapacidade para desenvolver relações positivas com ela mesma, bem como com os outros (Portugal, 2008).
