Domínio das emoções

É importante que as crianças sejam capazes de reconhecer e nomear as suas emoções, bem como as dos outros ao seu redor. O cuidador tem um papel importante na aquisição destas competências. De forma a desenvolver vocabulário expressivo e ilustrativo do que sentem é crucial que as crianças identifiquem, reconheçam, nomeiem e expressem as suas emoções. A validação das emoções é importante. É essencial ensinar a ouvir e a compreender os outros de forma a respeitar as diferenças de cada um (Antunes, 2024).

De acordo com o texto de Portugal (2000), mais concretamente com o princípio 5, este denomina-se de Respeitar as crianças enquanto pessoas de valor e ajudá-las a reconhecer e a lidar com os seus sentimentos.

"Pedro tem 12 meses e está sentado numa pequena mesa com outras crianças comendo uma banana. (...) A certa altura a banana cai no chão. Ele tenta agarrá-la, mas a educadora diz: "Tenho muita pena, Pedro, mas a banana agora está suja. Não te posso deixá-la comer". A desolação fica patente no rosto de Pedro. Pedro vira-se para a educadora pedindo mais, mas a educadora diz que não há mais, já se acabou. Ela senta-se na mesa depois de ter deitado fora o resto de banana estragada. Oferece-lhe uma bolacha, dizendo: "Já não há bananas, mas podes comer uma bolacha se quiseres" Pedro rejeita a bolacha e, compreendendo que realmente não vai ter mais banana, começa a chorar. A educadora diz calmamente e com verdade: "Vejo que estás triste, gostava de ter mais banana para te dar, mas não tenho." Pedro começa a chorar ainda mais e a bater com os pés. A educadora permanece em silêncio, olhando para ele e demonstrando que não é alheia aos sentimentos de frustração da criança. (...) Está aborrecido por causa disso. Volta-se para Pedro que continua a chorar e espera. Pedro sai do seu lugar, vai ter com a educadora e coloca a sua cabeça no seu colo. Ela acaricia-o nas costas suavemente. Quando ele se acalma, ela diz: "Precisas de lavar as mãos, Pedro". Ele não se mexe. Ela espera e volta a repetir: "Precisas de lavar as mãos. Eu vou contigo." (...)".

É necessário que as crianças tenham liberdade e segurança para expressar as suas emoções. Nesta situação, o papel da educadora foi crucial, visto que a mesma respeitou o tempo e o ritmo do Pedro, demonstrando paciência e empatia. Ao manter-se disponível, a educadora criou um ambiente acolhedor, permitindo ao Pedro que procurasse conforto quando estivesse pronto, reforçando a confiança e o vínculo entre eles. 


Twain (2010) citado por Arruda (2014), refere que as emoções são expressões afetivas intensas direcionadas a alguém ou a alguma coisa, diferenciam-se dos sentimentos, pois estes tendem a ser menos intensos e mais duradouros.

Ainda neste sentido Ekman (2011) citado por Arruda (2014), refere que as emoções são reações a situações que consideramos fundamentais para o nosso bem-estar. Muitas vezes, surgem de forma tão rápida que não temos consciência dos processos mentais que as desencadeiam.

De acordo com Espinoza (2004), citado por Arruda (2014), é possível referenciar algumas características das emoções, tais como:

"a) as emoções estão relacionadas a um acontecimento externo e parecem surgir quando algo inesperado ocorre; b) as emoções são inatas, geneticamente determinadas ou "aprendidas" como uma combinação de emoções básicas; c) a avaliação cognitiva é crucial para o entendimento de como as emoções ocorrem; d) as emoções são acompanhadas de reações   biológicas e normalmente são expressas através da mudança na expressão facial; e) as emoções dão a possibilidade de expressar um certo comportamento que determina qual emoção que ocorrerá; f) as emoções podem ser divididas em dois grupos: aquelas que envolvem fuga, recuo ou comportamento negativo (emoções negativas) e aquelas que envolvem atração, aproximação ou comportamento positivo (emoções positivas); g) as emoções focam e direcionam a atenção para algo que possivelmente é grandioso e selecionam o que é mais importante naquele momento."

Embora existam emoções que são agradáveis e outras que são desagradáveis, todas são consideradas emoções básicas, desde que sejam inatas, geneticamente programadas e desempenhem um papel essencial para a sobrevivência do organismo (Arruda, 2014).

Emoções básicas:

A alegria é vivida como uma emoção básica, pois tornasse ativa sempre que ocorre uma transição de uma situação neutra ou negativa para uma situação positiva. Existem, assim, várias situações que possibilitam ao ser humano vivenciar a emoção da alegria, visto que esta emoção proporciona bem-estar físico bem como psicológico (Arándiga & Tortosa, 2000, citado por Silva 2011).

Ferraz, Tavares e Zilberman (2007) citado por Arruda (2014), afirmam que a alegria é uma das emoções fundamentais para todos os indivíduos, pois é a principal responsável por causar bom humor e felicidade nas pessoas que a experienciam.

Depois de um dia de creche, assim que a mãe da Mariana chega para levá-la para casa, esta fica muito contente por ter a sua mãe de volta.

A tristeza é outra emoção básica e está relacionada com perdas significativas, perdas cujo significado é grandemente valorizado pelo indivíduo que sofre a perda. Para Ekman (2011) citado por Arruda (2014), a tristeza é uma das emoções mais duradouras, sendo vários os tipos de perdas que podem provocar esta emoção. É fundamental que a criança adquira ferramentas para regular esta emoção, pois é essencial que peça ajuda quando está triste.

A Carlota perdeu o seu peluche favorito. Ela gostava muito do seu ursinho e ficou muito triste pela sua perda.

A raiva é uma emoção básica que surge como resposta à frustração, devido à não concretização de objetivos alcançados pela criança. A nível cognitivo, esta emoção está frequentemente associada à perda de autocontrolo ou à dificuldade em manter a calma. A raiva é, assim, uma emoção poderosa, e é necessário canalizá-la adequadamente, utilizando recursos intelectuais que exigem autocontrolo. O primeiro passo para superar esta emoção é reconhecer que algo não correu da forma que esperávamos e só desta forma é que conseguimos ultrapassar a raiva (Bermejo, 2005 citado por Arruda 2014). Por esse motivo, a raiva é considerada a emoção mais desafiadora, ou seja, aquela que a criança tem mais dificuldade em regular.

O Antônio estava a brincar com o seu carrinho vermelho. O Diogo aproximou-se e tirou o carrinho vermelho ao Antônio sem pedir autorização. O Antônio ficou muito irritado.

O medo é uma emoção básica, presente desde o nascimento, e muito comum na infância e na adolescência (Schoen & Vitalle, 2012 citado por Arruda 2014). A principal função desta emoção aparenta ser o de proteger a integridade física e psicológica da criança, de determinados riscos que possam ocorrer, motivando-o para se libertar ou fugir de situações potencialmente temíveis (Melo, 2005). Quando a criança está exposta a qualquer tipo de medo, dificilmente consegue sentir ou pensar noutra coisa, pois a sua mente e a sua atenção estão focalizadas somente na ameaça. Esta emoção pode ser observada por meio das respostas motoras (posturas e gestos), mas também através das respostas neurovegetativas* (taquicardia e suor).

O Guilherme não consegue dormir sem a sua luz de presença. Ele tem muito medo do escuro.

A repulsa é uma emoção básica caracterizada por uma vontade de distância/aversão a estímulos que podem ser ofensivos, desagradáveis, como alimentos estragados, odores ou comportamentos considerados moralmente inaceitáveis (Oliveira, 2021). 

Na hora de almoço, quando o Samuel ia beber água, tinha um pequeno inseto a flutuar dentro do seu copo. Ele sentiu repulsa ao ver o inseto dentro do copo de água que estava prestes a beber.

A surpresa é uma emoção básica que surge em resposta a situações desconhecidas ou acontecimentos inesperados. Esta emoção é caracterizada por ser uma transição, pois a sua ocorrência pode desencadear outras emoções, como a alegria, o medo ou até mesmo a raiva, dependendo do contexto. Ainda neste sentido, a surpresa pode ser descrita como positiva, negativa ou neutra (Oliveira, 2021).

Ao chegar a casa depois de um dia de creche, a Rita recebe um presente inesperado. A mãe e o pai da Rita, tinham adotado um gatinho. Foi uma surpresa muito positiva para a vida de Rita.

As crianças expressam emoções mesmo antes de as compreenderem ou de as saberem nomear (Antunes, 2024).

As expressões faciais são manifestações universais que acompanham as emoções básicas. De forma a complementar esta informação, apresentamos a seguinte figura:

Figura 1 - (i) Alegria; (ii) medo; (iii) surpresa; (iv) tristeza; (v) repulsa; (vi) raiva.

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